Universidade Lusófona do Porto

"Ética, jornalismo e situações - limite: a cobertura televisiva de Pedrógão Grande"

A cobertura jornalística de situações-limite, tem vindo a ser objeto de um questionamento.



Todos os verões o território português é alvo de vários incêndios, mas não houve verão tão aterrador como o de 2017, onde os fogos destruíram por volta de 500 mil hectares de terreno, feriram e mataram mais de uma centena de pessoas, deixando outras tantas desalojadas e em completo desespero. O incêndio de Pedrógão Grande que começou a 17 de junho foi uma autêntica calamidade, tendo sido apenas extinto uma semana depois.

Por entre chamas e lavaredas, gritos e lágrimas, por entre mortos e feridos, muitos foram os jornalistas e reportes que se aventuraram. Aliás, o cenário caótico de Pedrógão Grande era o perfeito palco para audiências e muitos foram as estações televisivas a cobrirem a presente tragédia de forma sensacionalista, tendo a RTP representada pelo jornalista (repórter) José António Pereira e pelo jornalista (repórter de imagem) Filipe Valente talvez sido a estação que reportou com mais objetividade.

Quando o caos toma conta de tudo e todos, o respeito ético e deontológico são cruciais, e tal como José António Pereira afirmou na aula aberta dada pelo Doutor Professor Luís Loureiro de Ética e Responsabilidade Social dos Media no dia 13 de novembro, é importante agir sem nunca deixar de sentir; sentir o que está certo fazer. Como jornalistas o conteúdo que reportam e a maneira que o fazem, não reflete só quem são como profissionais, mas também quem são como seres humanos. Como seres humanos que são, é importante colocarem-se na pele das outras pessoas, nas que estão a sofrer e nas que estão em casa a assistir e perceberem até que ponto devem chegar e o que devem ou não transmitir.

Os jornalistas dão voz àqueles que em choque, em pânico e em agonia vêm entes queridos a abandonarem a vida e as suas casas a tornarem-se em cinza e escombros. No calor do momento falam muitas vezes sem consciência das suas palavras. O jornalista como o agente mais racional em todo aquele caos tem a responsabilidade de perceber o impacto negativo que poderá vir a ter a mediatização de certos desabafos. Foi dado o exemplo de um desabafo de uma mãe que de forma extremamente calma disse que a filha estava morta. Era evidente que a senhora se encontrava em choque e por essa razão não foi exposto o seu relato.

A mediatização de situações como a que se deu este verão em Pedrogão Grande é sempre analisada mais tarde com outra visão, onde são evidenciados pontos sensíveis que no direto ou na hora da reportagem não eram visíveis, mas os diretos são arriscados por essa mesma razão. Contudo e apesar das circunstâncias dificílimas em que os dois jornalistas se encontravam, tentaram sempre reportar de forma ética e isso foi o que os distinguiu dos demais.

Esperemos que os futuros jornalistas que se encontravam na sala tenham visto em Filipe Valente e em José António Pereira um exemplo a seguir e, que se lembrem de sentir de maneira a agirem de forma ética durante todas as reportagens que venham no futuro a fazer, apostando, assim, cada vez mais num jornalismo objetivo.