Universidade Lusófona do Porto

Incêndios florestais: a reação continua a sobrepor-se à prevenção.

Muito se tem investido no combate aos incêndios florestais, deixando a prevenção para segundo plano.

Nas últimas décadas, muito se tem investido no combate aos incêndios florestais, deixando a prevenção e o conhecimento/formação para um plano secundário. Todos os anos se chega à mesma conclusão, e todos os anos se perde a oportunidade de alterar o paradigma, continuando a reação a sobrepor-se à prevenção. Com as consequências que, infelizmente, são cada vez mais visíveis.

Todos os anos, e em particular entre junho e setembro, os números de ocorrências e de área ardida são devastadores. Neste período, são detalhadamente noticiados (e explorados até à exaustão) os meios de combate, situações críticas, povoações em perigo, áreas ardidas e perdas humanas e financeiras. Apontam-se causas e putativos responsáveis e questiona-se a qualidade e a quantidade dos meios existentes. São realizados debates, são publicados artigos de opinião sobre causas e consequências e é precipitadamente aprovada nova legislação. Sempre mais do mesmo.

Dos incêndios florestais resultam imagens de destruição, infraestruturas afetadas, habitações e, mais grave, vidas perdidas, interrupção de atividades produtivas, prejuízos avultados. Para além dos impactes ambientais (e.g. serviços dos ecossistemas, poluição atmosférica e dos recursos hídricos, degradação do solo, ...), sociais, na paisagem e no turismo rural, o que eleva substancialmente os prejuízos estimados.

Adicionalmente, a repovoação das áreas ardidas é muitas vezes efetuada com espécies de crescimento rápido, rentável a curto e/ou médio prazo, não privilegiando de forma criteriosa as espécies autóctones de baixa combustibilidade em áreas com maior risco de incêndio.

No entanto, o essencial continua invisível (ao olhar comum e não só): Portugal não progride para uma efetiva capacidade de gestão dos incêndios florestais que planeie, ordene, monitorize e avalie em primeira instância a forma de preveni-los e, posteriormente, de combatê-los. Esta ambição deve apontar para a coordenação integradora e colaborativa de todos os intervenientes, a prevenção centrada no planeamento e ordenamento da floresta e das atividades socioeconómicas, o cadastro, a utilização de tecnologias (que efetivamente funcionem) e o conhecimento ancorado numa visão transversal e multidisciplinar, alicerçado na investigação e na inovação para garantir uma capacidade operativa aliada ao conhecimento científico, aspetos essenciais na tomada de decisão em contextos complexos como é, indiscutivelmente, o caso.

Joaquim Pais Barbosa - Vice-Reitor e Diretor do Mestrado em Proteção Civil
Artigo publicado no Jornal Sol de 19 agosto 2017